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ENTENDENDO · ESTRESSE E ANSIEDADE

Por que a gente se preocupa

A preocupação parece raciocínio, mas raramente resolve a coisa em volta da qual ela circula. Veja o que a sua mente está de fato tentando fazer quando não para de rodar o pior cenário, por que esse hábito gruda e como afrouxar o aperto dele sem fingir que o mundo é seguro.

O sol brilha intensamente sobre uma cadeia de montanhas

Photo by Vladyslav Tobolenko on Unsplash

Dicas rápidas

  • Pergunte: dá para agir, ou não dá.
  • Mande as preocupações para um horário diário.
  • Mande a mensagem sem reler.

É uma terça-feira e nada está errado. As contas estão pagas, as crianças estão bem, o e-mail que você temia acabou em nada. E, mesmo assim, em algum lugar atrás dos seus olhos, um motor de baixa rotação está ligado. E se os exames não vierem limpos. E se você disse a coisa errada na reunião. E se o dinheiro acabar, e se a ligação chegar, e se, e se. Você não está em perigo. Você só está se preocupando. E alguma parte de você suspeita que, se parar, vai ser pego desprevenido.

Essa última parte é a chave de tudo. A preocupação, por dentro, não parece um defeito. Parece preparação. Parece responsabilidade. É exatamente por isso que é tão difícil largar.

Vamos desmontar isso, com calma, e olhar o que está de fato acontecendo.

A preocupação é a sua mente tentando te manter seguro

Voltando às origens, a preocupação faz um certo sentido. Na maior parte da história humana, as pessoas que vasculhavam o horizonte em busca de ameaças e ensaiavam o que poderia dar errado tendiam a sobreviver mais do que as que não faziam isso. Uma pequena dose de ansiedade ainda faz trabalho útil hoje. Ela te cutuca a verificar a fechadura, preparar a entrevista, mostrar a pinta ao médico. Apontada para um problema real e solucionável, aquela sensação de inquietação é um motivador.

O problema começa quando o alarme continua soando depois que a ameaça já foi, ou quando não há ameaça real nenhuma. A vida moderna nos entrega pouquíssimos problemas que podemos derrubar na marra e ir embora. A maior parte do que nos preocupa é incerto, distante ou não está de fato nas nossas mãos: um diagnóstico que só teremos daqui a semanas, o futuro de um filho, a economia, o que os outros pensam de nós. A maquinaria ancestral não conhece a diferença. Ela trata um "talvez" vago do mesmo jeito que trataria um passo no escuro.

Então o motor roda e roda, procurando uma ameaça para resolver, e não encontra nada que possa concluir. Esse é o ciclo.

Por que parece resolução de problema quando não é

Eis o disfarce que mantém a preocupação rodando. Ela veste a fantasia do raciocínio útil. Quando você está acordado de madrugada repassando o que pode dar errado com a mudança, a cirurgia, a conversa, parece de verdade que você está trabalhando no problema. Você está sendo diligente. Prudente. O adulto da sala, que se recusa a ser ingênuo.

Resolver problema e se preocupar podem parecer idênticos por fora, e compartilham um ponto de partida. A diferença é aonde vão. Resolver problema caminha em direção a uma resposta e então para. Você identifica a coisa que pode mudar, decide um passo, e o raciocínio acaba porque tem onde aterrissar. A preocupação não tem onde pousar. Ela retorna ao mesmo medo por um ângulo um pouco diferente, gerando "e se" novos mais rápido do que resolve os antigos. Dá para saber qual dos dois você está fazendo por um teste simples. Depois de dez minutos, você se sente mais perto de uma decisão, ou só mais agitado? O raciocínio útil te deixa mais leve e mais claro. A preocupação te deixa mais pesado e travado no mesmo lugar.

Isso importa porque quem se preocupa muitas vezes defende o hábito justamente porque ele parece produtivo. Parar parece baixar a guarda. Mas a produtividade é, na maior parte, uma ilusão. Os planos sobre os quais você de fato agiria geralmente levam alguns minutos para fazer. O resto das horas é gasto re-sentindo o medo, não resolvendo nada.

O que a preocupação está de fato evitando

Por muito tempo, a ideia dominante era que a preocupação nos ajuda a desviar de sentimentos ruins. Você raciocina ao redor de um problema em frases secas e verbais, e de algum jeito isso mantém o medo cru à distância. Há algo nisso. A preocupação é cheia de palavras. É uma história que você conta a si mesmo, e histórias parecem mais controláveis do que uma onda de pavor no peito.

Mas pesquisas mais recentes complicam o quadro de um jeito que vale considerar. Uma grande revisão da ciência sobre preocupação e ansiedade generalizada, publicada na revista *Clinical Psychology Review*, apresenta o que se chama de modelo de evitação por contraste. A ideia é quase contraintuitiva: quem se preocupa cronicamente não está tentando se sentir bem. Está tentando nunca se sentir pior. Mantendo-se num zumbido constante e baixo de aflição, essas pessoas evitam o tombo no estômago de serem atingidas por uma má notícia caída do céu. Se você já está preparado, diz o raciocínio, nada pode te pegar de surpresa.

É uma barganha que muitos de nós fazemos sem perceber. Fique um pouco infeliz o tempo todo, e você nunca terá que cair de muito alto. A pegadinha é brutal. Você gasta o presente pagando juros sobre um desastre que, na maioria das vezes, nunca chega. A coisa ruim pode acontecer uma vez. A preocupação acontece todo santo dia.

E a preocupação raramente suaviza o golpe que promete suavizar. As pessoas imaginam que ensaiar uma perda com antecedência vai tornar a coisa real mais suportável, como uma vacina. Geralmente não torna. Quando a coisa difícil chega, ela dói do jeito que coisas difíceis doem, você tendo passado ou não o mês anterior temendo-a. O que o pavor faz de forma confiável é roubar o tempo de antes. Você não consegue "des-sofrer" depois sofrendo antes. Você só sofre duas vezes.

Por que a incerteza é o verdadeiro gatilho

Se você observar de perto as suas próprias preocupações, vai notar que a maioria delas não é, na verdade, sobre uma catástrofe específica. É sobre não saber. A mente odeia uma pergunta em aberto e vai roê-la por horas em vez de deixá-la pousada sem resposta.

Os psicólogos têm um nome para isso: intolerância à incerteza. Descreve o quanto uma pessoa acha difícil ficar com o não saber como algo vai acabar. Pessoas com nível alto disso vivenciam a própria incerteza como uma ameaça, quase fisicamente desconfortável, e se preocupam como um jeito de fazer *alguma coisa* a respeito. Materiais clínicos que descrevem esse padrão observam que ele aparece na ansiedade e numa porção de outras dificuldades também. É um fio comum.

Eis a virada cruel. Preocupar-se parece estar reduzindo a incerteza. Você roda os cenários, faz os planos de contingência, imagina cada galho da árvore. Mas a incerteza não é um problema que você resolve pensando com mais força, porque a informação de que você precisaria simplesmente ainda não existe. Então a preocupação nunca chega a uma linha de chegada. Ela só produz mais perguntas, que produzem mais preocupação. Você pode passar uma noite inteira fazendo isso e acordar exatamente tão incerto quanto estava, só que mais cansado.

A verdade silenciosa e difícil por baixo da preocupação crônica é esta: em algum nível, você está exigindo uma garantia que a vida não pode dar. O trabalho não é achar a garantia. É ficar melhor em viver sem uma.

É uma coisa estranha de almejar, e vai contra cada instinto que a mente preocupada tem. A mente insiste que, se só pensar mais um pouco, consegue trancar o futuro. Não consegue, e alguma parte de você já sabe que não consegue, e é por isso que a mesma preocupação volta amanhã não importa o quão bem você a resolveu hoje à noite. A certeza nunca esteve no cardápio. A escolha à sua frente sempre foi entre se preocupar com o desconhecido e fazer uma espécie de paz com ele. Só uma das duas está de fato disponível.

O que de fato ajuda

Nada disso significa que você pode simplesmente decidir parar. Dizer a quem se preocupa para parar de se preocupar é como dizer a alguém para parar de ouvir uma música grudada na cabeça. O que você pode fazer é mudar a sua relação com a preocupação e tirar um pouco da comida do ciclo. Algumas coisas que de fato ajudam:

  1. Separe a preocupação em duas pilhas. Quando uma preocupação aparece, faça uma pergunta: isto é um problema sobre o qual posso agir agora, ou um medo sobre o qual não posso fazer nada? Se for do primeiro tipo, dê o menor próximo passo e deixe o resto ir. Se for do segundo, não há ação a tomar. O movimento honesto é perceber isso e virar a sua atenção para outro lugar, mesmo que pareça irresponsável.
  2. Marque um horário para a preocupação. Esta soa estranha e funciona melhor do que deveria. Escolha um intervalo fixo de quinze ou vinte minutos por dia, o mesmo horário e lugar, e chame de a sua hora de se preocupar. Quando uma preocupação surgir fora dessa janela, anote e diga a si mesmo que vai chegar nela então. A maioria das preocupações perde a urgência quando o horário enfim chega. Isso ensina a sua mente que a preocupação vai ser ouvida, só não o tempo todo. É uma ferramenta padrão na terapia cognitivo-comportamental.
  3. Termine o pensamento em vez de fugir dele. Quando um medo fica circulando, geralmente tentamos empurrá-lo para longe, o que só faz ele bater mais forte. Às vezes o oposto ajuda. Siga a preocupação até o fundo. Se o pior realmente acontecesse, e aí? E aí? Levadas até o fim, muitas catástrofes encolhem, porque você encontra uma versão sua do outro lado delas, dando conta. Você descobre que sobreviveria. Isso costuma ser justamente o que a preocupação estava escondendo de você.
  4. Saia da cabeça e entre nos sentidos. A preocupação vive na linguagem e no futuro imaginado. O seu corpo vive só agora. Uma expiração lenta, água fria nos pulsos, nomear cinco coisas que você consegue ver no cômodo, uma caminhada em que você de fato olha para os próprios pés. Isso não resolve o problema. Isso interrompe o ciclo tempo suficiente para o motor baixar a rotação.
  5. Pratique deixar uma pequena incerteza de pé. Já que a intolerância à incerteza é o combustível, a cura é contraintuitiva: deixe pequenas coisas sem resolver, de propósito. Mande a mensagem sem reler quatro vezes. Não cheque a previsão do tempo de novo. Permita-se não saber, de propósito, em situações de baixo risco. Você está construindo uma tolerância, do jeito que construiria qualquer outra força, levantando um pouco mais do que é confortável.

Repare que nenhuma delas promete que a preocupação vai sumir. Elas miram em algo mais honesto e mais alcançável: baixar o volume o suficiente para viver a sua vida de verdade enquanto a incerteza fica ali, sem solução, do jeito que a incerteza sempre vai ficar.

Quando a preocupação deixou de ser comum

A preocupação corriqueira vai e vem conforme as circunstâncias. Ela sobe antes de uma semana difícil e assenta depois. O tipo que vale levar a um profissional é aquele que não desliga. As organizações de saúde descrevem um padrão para observar: preocupação difícil de controlar, que roda na maioria dos dias por meses a fio, parece desproporcional ao que a disparou e começa a te custar sono, foco, apetite ou a sua paciência com as pessoas que você ama. Quando a preocupação persistente começa a interferir na vida diária, esse é o sinal para conversar com alguém.

Se algo disso parece os seus últimos meses, por favor não leia como um defeito de caráter ou algo a vencer na marra, sozinho. A ansiedade generalizada é comum, é bem compreendida e responde a tratamento, tanto terapia de conversa quanto, quando indicado, medicação. Um médico de família é uma primeira porta perfeitamente boa. Um terapeuta também. Buscar ajuda não é admitir que a preocupação venceu. É entregar parte do peso a alguém treinado para carregá-lo com você.

A preocupação provavelmente sempre vai fazer parte de ser uma pessoa que se importa com as coisas. O objetivo nunca foi silenciá-la por completo. É parar de deixá-la mandar na casa inteira, para que a parte de você que vive no presente, a parte que de fato está aqui nesta terça-feira comum em que nada está errado, possa voltar para a frente.

Fontes

Antes de ir, uma palavra sobre cuidado

A KEEP CALM oferece ferramentas educativas e gratuitas de autoajuda. Isto não é orientação médica, diagnóstico ou terapia, e não substitui o atendimento profissional. Se algo aqui ressoar como mais do que o estresse do dia a dia, procurar um profissional é um passo forte e sensato.

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