Dicas rápidas
- Agradeça a quem traz a má notícia.
- Defina a meta, devolva o caminho.
- Diga a eles exatamente o que funcionou.
Existe um tipo de gestor para quem quase todo mundo já trabalhou pelo menos uma vez. Os números estavam sempre um pouco atrasados. O tom estava sempre um pouco tenso. Você ficava até tarde, conferia tudo duas vezes, entregava a coisa. E no dia seguinte à entrega, a régua subia e o relógio zerava, e o medo silencioso recomeçava.
Funciona, de certo modo. É essa a armadilha. O medo de fato produz uma explosão de esforço, e é exatamente por isso que tantos líderes seguem recorrendo a ele. Você consegue ver a equipe se mexer. O que você não consegue ver, parado na frente da sala, é o que isso custa, porque o custo aparece depois e em outro lugar: na ideia que ninguém mencionou, no erro que ninguém sinalizou até ficar caro, na boa pessoa que, em silêncio, atualizou o currículo.
Gerar resultados e assustar as pessoas não são o mesmo ato. Podem parecer semelhantes por um trimestre ou dois. Em qualquer período mais longo, puxam em direções opostas.
O que o medo de fato compra para você
Quando as pessoas se sentem ameaçadas, elas se estreitam. A atenção encolhe até o perigo imediato, o que no trabalho geralmente significa evitar a culpa em vez de fazer o melhor trabalho possível. As pessoas param de se voluntariar. Respondem à pergunta que foi feita e não à que importava. Protegem-se primeiro, porque é isso que um animal ameaçado faz, e por baixo das reuniões e das apresentações ainda somos animais.
A pesquisadora de Harvard Amy Edmondson passou décadas estudando o que ela chama de segurança psicológica, a sensação compartilhada de que você pode se manifestar, fazer uma pergunta ou admitir um erro sem ser punido ou humilhado por isso. O achado dela, em hospitais, fábricas e escritórios, é consistente. Equipes em que as pessoas se sentem seguras para ser honestas aprendem mais rápido e rendem melhor, porque a má notícia viaja a tempo de se fazer algo a respeito. Numa equipe amedrontada, a má notícia chega tarde, se é que chega.
Essa é a conta de verdade da motivação baseada no medo. Você está pagando por obediência, e obediência é uma coisa muito menor do que comprometimento. Uma pessoa obediente faz o que é exigido. Uma pessoa comprometida nota o problema que você nem pensou em perguntar e traz até você antes que ele cresça. Você não consegue ameaçar alguém para que tenha esse segundo comportamento. Ele só vem de quem se sente seguro o bastante para se importar em voz alta.
Por que a pressão sai pela culatra no próprio trabalho
Há um segundo problema, e ele é sobre a qualidade do esforço, não só a quantidade.
Décadas de pesquisa sobre motivação humana, boa parte construída pelos psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, apontam para um padrão claro: quando as pessoas agem principalmente para escapar de uma ameaça ou perseguir uma recompensa pendurada na frente, a motivação delas fica frágil. Ela funciona enquanto a pressão está ligada e desaba no instante em que ela afrouxa. O tipo de impulso mais profundo e durável, o que sobrevive a uma semana ruim e produz um trabalho genuinamente bom, cresce de dentro da pessoa. E depende de três necessidades serem atendidas.
A primeira é a autonomia, a sensação de que você tem alguma voz real sobre como faz o seu trabalho. Não liberdade ilimitada. Só a sensação de que você é uma pessoa fazendo escolhas, não uma mão numa alavanca. A segunda é a competência, a sensação de que você está ficando bom em algo e consegue ver seu próprio progresso. A terceira é o vínculo, a sensação humana simples de que você pertence ali e de que as pessoas ao seu redor cuidam de você.
O medo envenena os três de uma vez. Ele tira a autonomia, porque pessoas amedrontadas fazem exatamente o que é mandado e nada mais. Corrói a competência, porque você não consegue correr os riscos que o aprendizado exige quando o fracasso é punido. E mata o vínculo, porque um ambiente de trabalho onde as pessoas vivem se protegendo não é um lugar onde alguém sinta que pertence. Quando você lidera pelo medo, você não está só sendo duro com as pessoas. Está, em silêncio, drenando o tanque de combustível com o qual você precisa que elas funcionem.
Então como você de fato gera resultados
Nada disso significa baixar a régua. O oposto, na verdade. Os líderes que mais extraem das pessoas tendem a manter padrões muito altos e apoio muito alto ao mesmo tempo. Os padrões são claros e o calor humano é real, e as pessoas se elevam para atender aos dois. Exigente e amedrontador não são a mesma coisa.
Veja como isso fica na prática comum.
- Seja claro no o quê, generoso no como. Defina o resultado, a régua de qualidade e o prazo sem névoa. Depois deixe as pessoas donas do caminho até lá sempre que puder. A autonomia está na rota, não no destino. As pessoas trabalham mais por uma meta que tiveram parte em alcançar do seu próprio jeito.
- Torne seguro trazer má notícia até você. A coisa mais útil que você pode fazer é recompensar o mensageiro. Quando alguém te diz que um projeto está escorregando, agradeça, em voz alta, por ter contado cedo, antes de fazer qualquer coisa sobre o atraso. Faça isso algumas vezes e sua equipe vai começar a trazer os problemas enquanto ainda são pequenos e baratos. Puna o mensageiro uma vez e ele fica em silêncio por um ano.
- Separe o erro da pessoa. "Isso foi para produção com um bug, vamos descobrir como passou" mantém a equipe pensando. "Como você deixou isso acontecer" joga todo mundo na autodefesa. A primeira conserta o processo. A segunda só ensina as pessoas a esconder.
- Deixe as pessoas verem que estão melhorando. A competência cresce com feedback específico e na hora certa. Diga a alguém exatamente o que funcionou, não só que a apresentação "ficou ótima". Estique a pessoa um pouco além do que ela já fez antes, e depois repare quando ela superar. Progresso que as pessoas conseguem de fato enxergar é um dos motivadores mais poderosos que existem, e não custa nada além de atenção.
- Conecte a tarefa a algo real. As pessoas entregam mais quando entendem quem o trabalho delas ajuda e por que importa. Não presuma que o sentido é óbvio. Diga. Uma equipe que sabe por que a coisa importa vai resolver problemas que você nunca chegou a delegar.
Você vai notar que nenhuma dessas é mole. Exigem mais disciplina do que o medo, não menos. Ameaçar pessoas é fácil. Estabelecer um padrão alto e depois construir as condições em que as pessoas de fato consigam atendê-lo é o trabalho mais difícil e mais habilidoso.
A parte honesta
Liderar sem medo não significa que não há consequências, e não significa que todo mundo recebe passe livre. Responsabilização de verdade faz parte do respeito. A diferença é em cima do que a responsabilização é construída. A responsabilização baseada no medo diz: faça isso ou algo ruim acontece com você. A responsabilização baseada na confiança diz: combinamos que isso importa, estou contando com você, e vou te dizer com franqueza quando estiver fora. Uma deixa as pessoas menores. A outra as trata como adultos capazes, e a maioria das pessoas, recebendo isso, vai trabalhar para se manter à altura.
Se você vem conduzindo sua equipe na pressão, isso tem conserto, e vale dizer que você não é uma pessoa ruim por ter feito isso. Muitos de nós fomos geridos desse jeito e aprendemos que é a única configuração que existe. A virada começa pequena. Flagre-se antes da reação ríspida. Agradeça uma pessoa por uma má notícia honesta esta semana. Devolva uma decisão para quem está mais perto dela.
Os líderes para quem as pessoas dão o seu melhor, e com quem ficam por anos, quase nunca são os que mais as assustaram. São os que eram exigentes e seguros ao mesmo tempo, que deixavam claro que o trabalho importava e que as pessoas que o faziam também. Essa combinação é mais rara do que deveria. Construa-a e você não vai precisar assustar ninguém para nada. Vão trazer o melhor de propósito.
Fontes
- American Psychological Association, Self-determination theory: A quarter century of human motivation research
- Harvard Business Review, What People Get Wrong About Psychological Safety (Amy C. Edmondson and Michaela J. Kerrissey)
- Harvard Kennedy School, The Fearless Organization: Creating Psychological Safety in the Workplace (Amy C. Edmondson)
- Self-Determination Theory, Self-Determination Theory and the Facilitation of Intrinsic Motivation, Social Development, and Well-Being (Ryan and Deci, 2000)