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CONEXÃO · FALAR DOS SENTIMENTOS

Como falar de sentimentos quando você não foi criado assim

Se a sua família lidava com as coisas difíceis ficando calada, falar de emoções pode parecer falar uma língua que nunca te ensinaram. Você pode aprender agora. Veja por onde começar, em passos pequenos e possíveis.

Homem de polo branco beijando mulher de camisa branca

Photo by Ralph Labay on Unsplash

Dicas rápidas

  • Escreva o sentimento antes de dizer.
  • Alcance uma palavra verdadeira mais próxima.
  • Comece pequeno com uma pessoa segura e gentil.

Alguém que você ama pergunta como você está de verdade, e sua mente fica em branco. Não porque você não sente nada. Porque não há uma palavra pronta, nenhum jeito treinado de entregar o sentimento. Você diz "bem", ou "cansado", ou muda de assunto, e uma pequena chance de estar perto passa batido.

Muita gente vive com esse branco. Muitas vezes ele remete à casa em que cresceu. Talvez sentimentos simplesmente não fossem discutidos de onde você veio. Talvez "estou triste" fosse recebido com "você está bem", ou com silêncio, ou com uma tarefa para fazer. Talvez seus pais estivessem carregando a própria carga e nunca tivessem espaço para te ensinar algo que ninguém ensinou a eles. Nada disso significa que você está quebrado ou frio. Significa que uma habilidade comum nunca foi praticada, do jeito que uma criança que nunca teve um piano em casa simplesmente nunca aprendeu a tocar.

A boa notícia é direta. Isso é uma habilidade, e habilidades podem ser construídas em qualquer idade.

Por que as palavras não vêm

Quando os sentimentos ficaram sem ser ditos por anos, duas coisas tendem a acontecer. A primeira é que o vocabulário nunca se desenvolveu. Você pode sentir uma onda de algo pesado no peito e não ter nome para isso, então fica num vago "ruim". Os psicólogos têm uma palavra para a dificuldade real de identificar e descrever emoções: alexitimia. Ela fica num espectro, e muita gente que nunca usaria esse termo ainda assim reconhece a experiência de sentir algo forte e não ter linguagem para colocar em volta.

A segunda coisa é que falar de sentimentos pode parecer genuinamente inseguro, muito além de constrangedor. Se um dia se abrir te rendeu ser ignorado ou ridicularizado, seu corpo aprendeu a lição. Então, mesmo agora, com pessoas que nunca fariam isso, o alarme antigo dispara. Sua garganta aperta. Você desconversa. Essa reação fez sentido um dia. Só não está mais te servindo.

Há um custo real em deixar isso onde está. Pesquisas consistentes ligam reprimir as coisas de forma crônica a mais estresse, e a se sentir mais sozinho mesmo numa sala cheia de gente. Os sentimentos não somem quando você os engole. Eles vazam de lado, como um pavio curto, uma dor de barriga, uma distância que você não consegue explicar para as pessoas mais próximas.

Comece nomeando para si mesmo

Antes de dizer uma palavra a qualquer um, fique um pouco melhor em nomear as coisas por dentro. Essa parte é privada. Ninguém está olhando, e não há resposta errada.

Quando algo se mexer, tente colocar uma palavra nele. Não um parágrafo. Uma palavra. Magoado. Com medo. Aliviado. Cansado de um jeito que o sono não resolve. Os clínicos da Cleveland Clinic apontam que até atribuir uma única palavra, como "magoado" ou "com medo", pode tirar parte do calor de um sentimento. Você não precisa acertar exatamente. Você só está alcançando a palavra verdadeira mais próxima.

Há ciência do cérebro por baixo disso, e é encorajadora. Quando pesquisadores da UCLA fizeram pessoas rotularem uma emoção em palavras, o centro de alarme do cérebro, a amígdala, se aquietou, enquanto a parte mais ponderada do cérebro entrou em ação. O pesquisador principal, Matthew Lieberman, resumiu de forma simples: quando você anexa a palavra "com raiva", você vê uma resposta diminuída na amígdala. Nomear um sentimento não é desabafar. É um pequeno ato de se firmar.

Se até uma palavra é difícil de achar, isso é normal, e há uma ferramenta para isso. Uma "roda das emoções", criada primeiro pela psicóloga Gloria Willcox em 1982, coloca um punhado de emoções amplas no centro, e depois se abre em leque para outras mais específicas. Você começa pela geral ("ruim"), e aí vai se movendo para fora até pousar em algo mais verdadeiro ("deixado de fora", "decepcionado", "envergonhado"). Procure a expressão e você vai achar versões para imprimir em segundos. Guarde uma no celular. São rodinhas de apoio, e não há vergonha em rodinhas de apoio.

Depois pratique no papel

Dizer um sentimento em voz alta para outro ser humano é a versão mais difícil disto. Não comece por aí. Comece onde ninguém pode reagir.

Escreva. Não um diário que você tem que manter para sempre, só algumas linhas quando algo está pesando em você. "Me senti pequeno naquela reunião e não sei direito por quê." "Estou com mais raiva dele do que isso merece." Escrever te dá o que a conversa não dá: tempo para pensar, editar e tentar de novo até as palavras de fato encaixarem. Susan David, psicóloga da Harvard Medical School, recomenda ampliar seu vocabulário emocional de propósito, porque quanto mais precisamente você consegue nomear o que está acontecendo, melhor você consegue decidir o que fazer a respeito. "Estressado" e "decepcionado" pedem respostas bem diferentes. Você não consegue escolher a certa se tudo só se lê como "esquisito".

Faça isso por algumas semanas antes de mudar uma única conversa. Você está construindo o músculo em privado para ele estar lá quando você precisar dele em público.

Dizer para outra pessoa

Quando você estiver pronto para levar isso para a voz alta, mantenha as primeiras tentativas pequenas. Você não está mirando num papo de coração aberto. Você está mirando numa frase honesta.

  • Escolha um sentimento de baixo risco e uma pessoa segura. Não abra com a coisa mais difícil da sua infância. Tente "aquele filme me pegou mais do que eu esperava" com alguém gentil. Deixe uma fácil dar certo primeiro.
  • Use um modelo simples. "Eu me sinto ___ em relação a ___." É isso. "Eu me sinto nervoso com a viagem." "Eu me senti magoado quando o plano mudou e ninguém me avisou." Parece básico porque é, e o básico funciona.
  • Nomeie o próprio desconforto. É totalmente justo dizer: "Eu não sou muito bom nisso, então me dá um tempo." Essa honestidade faz dois serviços: baixa a sua própria pressão e diz à outra pessoa para ter calma com você.
  • Comece pelo que é verdade para você, não pelo que está errado na pessoa. "Eu me senti deixado de fora" cai bem diferente de "você me deixou de fora". O primeiro abre uma porta. O segundo tende a começar uma briga.
  • Você tem permissão de usar uma ponte escrita. Uma mensagem que diz "eu venho querendo te contar uma coisa e é mais fácil digitar" não é trapaça. É um jeito de verdade de entrar.

Espere que pareça desajeitado. Esse sentimento não é sinal de que você está fazendo errado. É a sensação exata de fazer algo novo, e ela passa com as repetições. A primeira vez vai ser a pior.

Uma palavra sobre as pessoas com quem você cresceu

Há uma esperança específica que vale lidar com cuidado: o sonho de finalmente ter a conversa profunda, de sentimento, com o pai ou a mãe que não conseguia tê-la lá atrás. Às vezes isso vai lindamente. Às vezes a pessoa que nunca aprendeu a língua ainda não consegue falá-la, e insistir só te deixa machucado de novo.

Então entre de mãos abertas. Você pode ser honesto sem precisar que a pessoa te acompanhe. "Eu te amo e queria que a gente tivesse conversado mais" é uma coisa completa e digna de se dizer, mesmo que tudo o que você receba de volta seja um aceno rígido. Os limites da pessoa são sobre a história inacabada dela, não sobre o seu valor. E a proximidade que você busca não depende dela. Você pode construí-la com um parceiro, um amigo, um irmão, uma família que você mesmo escolhe.

Quando trazer ajuda

Parte disso vai mais fundo do que a prática consegue alcançar sozinha. Se tentar sentir ou nomear suas emoções traz pânico, dormência, ou uma onda de memórias que te derruba, isso é um sinal para fazer esse trabalho ao lado de alguém treinado, não sozinho. Um terapeuta pode ajudar você a construir linguagem emocional num ritmo que pareça seguro, especialmente se o silêncio na sua família vinha embrulhado com qualquer coisa assustadora ou prejudicial. Abordagens como a terapia de conversa são feitas exatamente para isso, e procurar uma é uma jogada forte, não fraca.

Você aprendeu a ficar calado porque, um dia, o silêncio te manteve seguro. Aquilo era sabedoria na época. Você tem permissão de aprender algo novo agora, uma palavra verdadeira de cada vez, com pessoas que querem ouvir.

Fontes

Antes de ir, uma palavra sobre cuidado

A KEEP CALM oferece ferramentas educativas e gratuitas de autoajuda. Isto não é orientação médica, diagnóstico ou terapia, e não substitui o atendimento profissional. Se algo aqui ressoar como mais do que o estresse do dia a dia, procurar um profissional é um passo forte e sensato.

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