Dicas rápidas
- Deixe o celular virado para baixo, longe.
- Repita o que você entendeu que a pessoa quis dizer.
- Pergunte se ela quer desabafar ou resolver.
Alguém que você ama está te contando algo que importa para essa pessoa, e você sente que está se distraindo. Uma parte de você concorda com a cabeça. Outra parte já está montando a resposta, a solução, o exemplo da sua própria vida que prova que você entendeu. Quando a pessoa termina, você está pronto. Você responde. E algo no rosto dela se fecha um pouco.
Você não estava tentando dispensar a pessoa. Provavelmente estava tentando ajudar. Mas quem estava ali na sua frente não recebeu aquilo que de fato veio buscar, que era ser ouvido. Essa lacuna, entre ter boa intenção e acertar o tom, é por onde muita proximidade vaza silenciosamente dos nossos relacionamentos.
A boa notícia é que a escuta de verdade é uma habilidade, não um tipo de personalidade. Para algumas pessoas, ela vem com mais facilidade. Todo mundo pode melhorar nisso. E vale a pena melhorar, porque se sentir compreendido por outra pessoa não é um agrado supérfluo. Quem se sente ouvido e valorizado nos seus relacionamentos tende a ter menos estresse, menos solidão e mais estabilidade no geral. O outro lado é igualmente real: quando alguém se sente cronicamente não ouvido, isso vai desgastando a pessoa.
O que ser ouvido de fato faz por uma pessoa
É tentador arquivar a escuta sob boas maneiras, algo que pessoas educadas fazem. O efeito vai bem mais fundo do que isso.
Quando alguém se sente genuinamente ouvido, um pedacinho de pressão sai de cima da pessoa. Ela não precisa ficar insistindo para fazer o seu ponto. Pode parar de se proteger. Dá para ver isso acontecer em tempo real, nos ombros, na respiração. Esse alívio é parte do motivo pelo qual ser ouvido é uma das coisas mais calmantes que uma pessoa pode dar à outra, e o motivo pelo qual tanta gente sai de uma boa conversa se sentindo mais leve do que os fatos sozinhos explicariam.
A pesquisa confirma o quanto isso importa. Em estudos sobre médicos e pacientes, a diferença entre se sentir ouvido e se sentir dispensado aparece em tudo o que se mede. Quando os pacientes sentiam que o médico realmente escutava e demonstrava empatia, relatavam estar mais satisfeitos e mais amparados. Quando sentiam que o médico nunca escutava, o estrago emocional era mensuravelmente pior. É um cenário clínico, mas a lição vai direto para a sua cozinha e para os seus grupos de WhatsApp: ser ouvido não é enfeite por cima de um relacionamento. É parte de como o relacionamento cumpre o seu papel.
Há um benefício mais discreto também, e ele é para você. Quando você para de se esforçar para entregar a resposta perfeita e simplesmente absorve a pessoa, as conversas ficam menos exaustivas. Você deixa de administrar dois trabalhos ao mesmo tempo, escutar e fazer um teste de elenco. Você passa a fazer só o primeiro.
Por que somos tão ruins nisso (e por que a culpa não é sua)
Escutar soa passivo. Ficar parado, ficar quieto, deixar as palavras entrarem. Se fosse só isso, todos nós seríamos bons nisso.
O que de fato acontece é que a sua mente é rápida e a conversa é lenta. Você consegue pensar várias vezes mais rápido do que a outra pessoa consegue falar, e essa capacidade que sobra precisa ir para algum lugar. Então ela vai para julgar, comparar, ensaiar a sua resposta, decidir se a pessoa está certa. Os pesquisadores descrevem a escuta genuína como um processo ativo com várias partes em movimento: captar as palavras, ler o sentimento por baixo delas e então mostrar à outra pessoa que você pegou os dois. Os clínicos às vezes dividem isso em três estágios, perceber o que quem fala quer dizer (inclusive as partes que não foram ditas em voz alta), processar e responder de um jeito que prove que você estava ali. Repare quanto disso é trabalho. Nada disso é ausência de esforço.
Há também um reflexo trabalhando contra você. Quando alguém nos traz um problema, a maioria de nós corre direto para uma solução, porque resolver parece cuidar e o silêncio parece inútil. Às vezes uma solução é exatamente o que se quer. Muitas vezes não é. Uma solução apressada pode soar como "vamos encerrar isso", mesmo quando você quis dizer "quero tirar esse peso de você".
Como é, na prática, ser genuinamente ouvido
Pense na última vez em que você se sentiu completamente compreendido por outra pessoa. É bem provável que ela não tenha sido impressionante. Não deu um conselho brilhante. Só estava inteira ali com você. Você sentiu a diferença.
Aqui está o que essa pessoa quase com certeza estava fazendo.
Ela se livrou das distrações, inclusive da que estava na mão
Você não pode escutar pela metade e isso valer. A Cleveland Clinic coloca o estar presente de forma plena bem no topo da sua lista, e o maior inimigo da presença é o celular. Vire-o para baixo, ou deixe em outro cômodo. Volte o seu corpo para a pessoa. Dê a ela os seus olhos. Nada disso é para parecer educado. É para dar à outra pessoa a sua atenção de verdade, que ela sente no instante em que a tem e no instante em que não a tem.
Ela parou de compor a resposta
Essa é a difícil, porque acontece automaticamente. No instante em que você começa a rascunhar a sua resposta, você saiu da conversa, mesmo continuando sentado nela. Tente isto: deixe a outra pessoa terminar por completo antes de decidir o que você pensa. Você vai captar coisas que perderia, e o pequeno silêncio enquanto você considera as palavras dela diz a ela que você de fato as pesou. O silêncio não é uma falha em responder. É parte do responder.
Ela devolveu o que ouviu
Esse é o movimento que mais ajuda e o menos praticado. Depois que alguém compartilha algo real, repita o que você ouviu, com as suas próprias palavras. "Então parece que você nem está com raiva do prazo, está magoado por não terem te perguntado antes." É isso. Você não está concordando, consertando nem dando nota. Está conferindo.
Duas coisas acontecem quando você faz isso. Se você acertou, a pessoa sente um pequeno clique de alívio, a sensação específica de ser compreendida. Se você errou um pouco, ela te corrige, e agora os dois entendem melhor do que entendiam um segundo atrás. Não existe jogada perdedora. Devolver o que se ouviu, o que os especialistas chamam de reflexão ou paráfrase, é uma das técnicas centrais na pesquisa justamente porque funciona dos dois jeitos.
Ela escutou o sentimento, não só os fatos
Por baixo da superfície da maioria das coisas que as pessoas nos contam há uma emoção em busca de uma testemunha. A história sobre o colega grosseiro é, na verdade, sobre se sentir desrespeitado. O relato longo sobre a consulta médica é, na verdade, sobre medo. Você não precisa ler mentes. Pode só nomear o que percebe, com gentileza e como um palpite. "Isso parece exaustivo." "Você parece mais preocupado do que está deixando transparecer." Se você errar, a pessoa vai te avisar. Se chegar perto, você mostrou a ela que a parte que mais importava era a parte que você estava acompanhando.
Ela perguntou, em vez de presumir
Boas perguntas são uma forma de generosidade. Não as do tipo interrogatório, mas as que abrem uma porta. "Como foi isso para você?" "O que você precisa agora, desabafar ou resolver o problema?" Essa última é quase mágica nos relacionamentos próximos, porque encerra o desencontro silencioso em que uma pessoa quer conforto e a outra entrega um plano de cinco pontos. Pergunte, e você pode parar de adivinhar.
Como isso soa numa conversa de verdade
Movimentos numa lista podem parecer mecânicos. Veja como eles se encaixam quando alguém com quem você mora chega em casa exausto.
A pessoa larga a bolsa e diz que o novo gerente reorganizou a equipe inteira e só avisou quando já estava feito. Seu primeiro impulso é o óbvio: isso é um absurdo, você devia falar alguma coisa, é exatamente isto que você tem que mandar. Segure isso.
Em vez disso, você larga o celular e se volta para ela. "Tá. Me conta o que aconteceu." Você deixa que ela coloque tudo para fora, até as partes que dão voltas, sem completar as frases dela. Quando ela pausa, você não preenche. Você fica no silêncio por um instante, e então diz o que ouviu. "Então você descobriu depois do fato, numa reunião, na frente de todo mundo." Ela concorda com a cabeça e acrescenta a parte que ainda não tinha dito, a parte que de fato dói: aquilo a fez se sentir invisível.
Esse é o fio. Você o puxa com cuidado. "Isso parece menos uma questão de agenda e mais que você se sentiu apagado." Agora ela está realmente falando, porque você encontrou o sentimento por baixo dos fatos. Você não consertou nada. Não precisou. Antes de oferecer uma única ideia, você faz a pergunta que salva a maioria das conversas: "Você quer pensar no que fazer, ou só precisa ficar bravo por um minuto?" Seja qual for a resposta, você finalmente pode dar a ela a coisa certa, em vez de adivinhar.
A troca inteira pode levar quatro minutos. Ninguém recebeu conselho que não pediu. E a pessoa entrou se sentindo sozinha com aquilo e saiu sentindo que alguém estava do lado dela.
Algumas coisas para parar de fazer
Às vezes escutar melhor é, em grande parte, remover o que atrapalha.
- Segure o conselho até que ele seja pedido. Se você não tem certeza, pergunte. "Você quer a minha opinião, ou só quer que eu escute?" A maioria das pessoas solta o ar quando você pergunta isso.
- Resista a coroar a história da pessoa com a sua. "Ah, aconteceu a mesma coisa comigo" parece conexão por dentro e parece um sequestro por fora. Um pouquinho aproxima. Muito disso move o holofote para você.
- Não corra para consertar o sentimento. "Não se preocupe", "vai dar tudo certo", "olha o lado bom" podem soar como se você quisesse que o sentimento sumisse para você ficar confortável de novo. Ficar ao lado de alguém num momento difícil é mais útil do que convencê-lo a sair dele.
- Cuidado com o impulso de se defender. Quando o que a pessoa está dizendo é sobre você, o instinto de se explicar é enorme. Você pode. Depois. Primeiro, garanta que ela se sinta compreendida, mesmo na discordância. As pessoas toleram muito conflito se acreditam que você de fato as ouviu.
Quando só escutar não basta
Há um limite para o que escutar melhor consegue carregar, e ajuda ser honesto sobre onde ele está.
Se a mesma conversa dolorosa fica em loop sem nenhum movimento, ou se alguém que você ama está afundando em algo mais pesado do que uma semana difícil, escutar bem é um começo, não uma solução. Um bom terapeuta de casal ou de família pode ensinar duas pessoas a se ouvirem de um jeito que é genuinamente difícil de aprender sozinho. E se alguém continua te dizendo, em palavras ou no rosto, que se sente sem esperança ou inseguro, o seu trabalho deixa de ser compreender e passa a ser ajudá-lo a conseguir apoio de verdade. Escutar é como você fica perto o suficiente para perceber. Não substitui ajuda profissional quando a situação precisa dela.
Na maior parte do tempo, porém, a régua é mais baixa e mais alcançável do que tememos. Você não precisa dizer a coisa perfeita. Você só precisa, em geral, largar o celular, parar de ensaiar e deixar que a outra pessoa veja que o que ela disse de fato chegou até você. Faça isso, e você dá a ela algo mais raro do que um conselho. Você dá a ela a experiência de não estar sozinha naquilo.
Fontes
- Cleveland Clinic, 7 Ways To Improve Your Active Listening Skills
- StatPearls / NIH National Library of Medicine, Active Listening
- Frontiers in Psychiatry (PubMed Central), Validation of the Chinese version of the Active-Empathic Listening Scale
- American Psychological Association, Active listening — APA Dictionary of Psychology